15/12/2010

Lost: Relembrando, refletindo, teorizando

 COM SPOILERS PARA QUEM NÃO VIU O FINAL DA SÉRIE
Quem me conhece um pouco além, sabe o quanto eu sou fascinado pela série Lost. Não canso de assistir os episódios, e na minha visão apaixonada, não há nada nem ninguém que tenha produzido história tão brilhante e reflexiva como os produtores e roteiristas desta série.


 Ok, é uma visão apaixonada, mas é apenas a minha visão, e cada um tem a sua. Mas o que me faz desenvolver tal visão apaixonada, são fatores que fogem um pouco da paixão. Ponto um, Lost  me fez crescer. Sim, e é exatamente para isso que existe a arte, para acrescentar algo às nossas vidas, seja através do riso, do drama, do choque, do nojo, enfim, a arte existe para nos impressionar, nos tirar da nossa zona de conforto. E para quem acha que é ridículo eu assumir que cresci devido a uma série de televisão, é bom parar de ler o texto, porque ao final dele você vai me achar mais ridículo ainda e talvez você não queira isso.


Seis meses após o final da série, muito ainda se debate nos fóruns e comunidades virtuais sobre os pontos positivos, os negativos e as polêmicas pontas soltas que a série deixou, talvez para o seu público juntar. E seis meses depois do fim, eu ainda defendo aquele desfecho e cada vez com mais veemência porque, com o distanciamento da série, com a cabeça longe do turbilhão de acontecimentos que a série nos proporcionava quando estava no ar, eu adquiri uma serenidade que me permitiu tornar o desfecho cada vez mais palatável, simples e didático.

Para mim, não faltaram respostas, assistindo a série sem os seus intervalos entre as temporadas, geralmente cerca de nove meses, a gente vê que há uma linha de coerência com que vimos no final. Claro que os roteiristas não sabiam exatamente em que ponto queriam chegar quando ainda escreviam a primeira temporada, primeiro porque qualquer obra está sujeita a mudanças, seja porque determinado personagem funciona ou não, seja porque determinado ator dá conta, ou não, seja porque o roteirista simplesmente desistiu de seguir tal linha, e segundo porque Lost é da ABC, um canal de televisão americano submetido às regras do capitalismo e que portanto submete as suas séries aos índices de audiência que ditam a sua elasticidade ou encurtamento.



Tudo isso pra dizer o que se repete à exaustão quando se fala do final de Lost. Essa foi uma série sobre PESSOAS e não sobre MISTÉRIOS. No frigir dos ovos, foi isso mesmo. Dane-se se é perfeitamente possível ou cientificamente provado que a explosão de uma bomba de hidrogênio vá conter uma energia eletromagnética. E daí? O que importa é que isso vai implicar na vida daqueles personagens, porque são eles que falam, que riem, que choram. E no final das contas, os mistérios estavam ali para comporem um pano de fundo, para fazer os personagens seguirem os seus caminhos. Quando eu abandonei o lado instrumental de Lost e toda a sua faceta sci-fi, eu pude contemplá-la de maneira mais absoluta.

Afinal de contas, foi através dos personagens, e não dos mistérios nem da Iniciativa Dharma, que nós pudemos debater dicotomias históricas que, parafraseando Cazuza “já vem malhada antes d´eu nascer”, tipo: Fé X Ciência. Tipo: Destino X Livre arbítrio. Tipo: Bem X Mal. E o melhor de Lost é que ela criou esteriótipos, para em seguida, subvertê-los. Os nossos perdidos, nunca foram o que pareciam ser.

Jack, o médico, mocinho, herói, mas falido por dentro, criado num universo de cobranças, onde ser melhor que o pai era, ao mesmo tempo que obrigação, barreira intransponível. Kate, sardenta, aparência doce, mas assassina e fugitiva. Sayid, torturador sanguinário, que passou a vida inteira acreditando que sua natureza era ruim, mas que entrou em colapso ao descobrir, na ilha, que talvez estivesse errado. Enfim, só para citar alguns dentre quase todos os personagens que apresentavam uma história sofrida e contada de forma cirúrgica pela série.


Sim, a ilha era a grande chance para que todos aqueles que estavam sozinhos fora dela, pudessem se modificar, através da vida conjunta e forçada, no enfrentamento das dificuldades e no processo de amadurecimento das forças que nos movem e que ditam de que forma somos. E os mistérios? Ah, eles são as dificuldades, afinal de contas, as provas que aquelas pessoas tinham de passar eram difíceis, duras, para que proporcionassem o crescimento pessoal. Mas a ilha jamais foi uma escola, a ilha era a rolha que protegia o mundo do mal.

Oh, que frase de efeito. Ouvimos essa frase no nono episódio da sexta temporada de Lost. Muitos se surpreenderam, mas não podemos esquecer que desde a primeira temporada, Locke diz a Jack: “eu olhei nos olhos da ilha, e o que vi, foi lindo”. Numa outra ocasião ele complementa: “nós caímos aqui por uma razão. A ilha nos trouxe pra cá”. Um pouco mais à frente ele fala: “isso não é uma ilha, é um lugar onde milagres acontecem”. Portanto, os críticos da sexta temporada não me venham dizer que os elementos romantizados e pouco científicos só foram introduzidos no final, eles estavam lá desde o começo.

Enquanto Jack e Cia se livraram dos mistérios e dos obstáculos e conseguiam enfim, sair da ilha, o telespectador descobre que aquele lugar tem um protetor, Jacob. Mas Jacob protege o que? Jacob protege a luz. A ilha, como sugerido desde o início, havia abrigado gente desde os primórdios da humanidade, e isso fica provado através dos escritos de origem grega, romana e egípcia, e sempre teve um protetor. Jacob chegou lá em 23 a.c. No ventre de sua mãe, acompanhado de seu irmão gêmeo. Ao chegar à ilha, a mãe dá a luz, Jacob e seu irmão são criados pela então protetora da ilha, que, cansada de sua função, assassina a mãe da criança e decide passar o bastão a um dos dois irmãos. 


Um, Jacob, é o menino perfeito, não questiona, não faz nada de errado, o outro, é rebelde, ambicioso e descobre que o mundo não se resume à ilha, como a mãe os fez acreditar. Há um conflito instalado entre os irmãos, o questionador, que enfim descobre uma maneira de sair da ilha, e o virtuoso que quer proteger a falsa-mãe. Por proibir o ambicioso a sair da ilha, a mãe é assassinada por ele. Jacob vira o novo protetor da ilha, protetor da luz.

Na trama dos irmãos e da falsa-mãe, nós vemos um debate histórico. É da natureza humana buscar respostas, o irmão de Jacob sabia que havia algo além do mar. E a mãe viu que não era ele o ideal para proteger a luz da ilha. Quando crianças, ela os leva até a luz e diz que nenhum homem pode ter acesso a ela, visto que, chegariam, explorariam a luz e por não terem limites, iriam apagá-la, apagando a luz na ilha, tudo que conhecemos, deixaria de existir.

Portanto, o verdadeiro protetor da luz, deveria ser aquele com enorme doação, que sublimasse qualquer vício, qualquer pretensão de conhecer o que verdadeiramente expressava aquela luz. Jacob se mostrou assim, alguém que preferia acreditar no puro, no sentido pleno do humano, na natureza boa das pessoas. O outro irmão, preferiu o caminho contrário, não conseguiu sair da ilha, mas durante séculos, visto que os dois permaneceram presentes na realidade da ilha durante mais de dois mil anos, travaram uma batalha ideológica acerca da natureza do homem.

Por ódio, por não permiti-lo que saísse da ilha, o irmão de Jacob jurou matá-lo, mas por uma regra do jogo, um não poderia ferir o outro. Assim, o irmão de Jacob jurou que um dia, encontraria uma brecha. Para provar ao irmão que o homem tinha natureza boa e que sempre era capaz de transpor as dificuldades da vida, Jacob passou séculos a “trazer” pessoas à ilha, a fim de que elas o substituíssem na missão de protetor do lugar, a fim de que elas provassem ao irmão descrente, que o homem era alguém merecedor de fé. Diante da falibilidade dos humanos, todos esses grupos chegaram à ilha, não se ajustaram e acabaram por se matar, confirmando a tese do irmão de Jacob de que os homens eram corruptíveis e errantes.

Até que chega na ilha o vôo 815 da Oceanic. Trazendo consigo um grupo de pessoas destinadas a estarem na ilha, destinadas a superarem suas dificuldades e transtornos, para enfim, se encontrarem em vida e provarem a si mesmos e todos os outros, que diante de todas as dificuldades, somos sempre capazes de encontrar o melhor caminho a seguir. 

Jacob trouxe cada um à ilha. O seu irmão tratou de, pouco a pouco, corrompê-los. Depois de séculos, encontrou uma brecha, e através dela, conseguiu matar Jacob. A luz estava sem protetor. Era a vez de Jack.
Ele, médico, cientista, tão descrente na capacidade que a ilha tinha de lhe prender. Até sair da ilha, Jack não acreditava em uma só palavra de Locke. Depois, no mundo real, percebeu que a ilha ainda não tinha saído de sua vida totalmente. Destruído pelo fracasso, Jack consegue compreender que ainda não havia cumprido o que era certo. Com fé na ilha, Jack se modifica. Acaba por acreditar que era naquele lugar que estaria reservado para ele o papel para o qual fora criado. O papel de herói, protetor da ilha.  

Mas afinal, o que era a luz? Bom, a série não respondeu milimetricamente, mas podemos achar a resposta em conta gotas ao longo dos episódios. A ilha tinha manifestações eletromagnéticas extraordinárias, a luz seria a concentração dessas forças que a humanidade como um todo não conhecia. E foi para chegar à luz que a Iniciativa Dharma se instalou na ilha e foi extinta sem nunca ter chegado a ela. Essa é a explicação científica, superficial, periférica. A explicação profunda reside numa reflexão de vida.
 

A partir do final revelador, onde ficou demonstrado que tão forte foi o elo construído por aquelas pessoas que, mesmo depois de mortas, numa “realidade” pós-morte, buscavam se encontrar para enfim, seguirem em frente, livres daquilo que os atormentava em vida, fica a grande revelação:

A ilha é e sempre foi a divisão entre o mundo dos vivos e o que há além. A luz eletromagnética, virgem, inexplorável, é o que mantém viva a realidade pós-morte que nos une com aqueles que amamos e com quem construímos laços de afetividade na vida. Afinal de contas, pela série, nada acaba aqui, o humano, tem sempre uma segunda chance, de começar, de errar, de se perder, de se achar, nem que essa superação venha noutro plano, na derradeira oportunidade de juntar os cacos para seguir em frente junto daqueles que em vida fizeram-na valer a pena.

A luz e a ilha não deveriam ser descobertas, para preservar esse patrimônio que nos é reservado, na filosofia da série, depois da morte. Achando o homem, a luz perdida, de tanta ambição, buscando a felicidade terrena, a qual tanto falam as religiões, acabaria por apagá-la, desperdiçando a oportunidade de ampliar os laços de amor daqui, para o outro lado.

Lost nos confidenciou muito acerca de muitas coisas perdidas, o avião, os personagens que não se encaixavam no contexto social, a ilha, a luz. E com seu final nos ajuda a entender, não a vida após a morte, visto que a série só tentou teorizar acerca, mas a compreender o quanto perdidos em nossas redomas, somos dependentes do outros para fazê-los seguirem em frente e para nisso, seguirmos em frente. E não precisa ser em outro plano, poderemos apostar aqui mesmo. 

Lost me ensinou acerca da solidariedade, da dependência, da prudência acerca dos mistérios da vida, do valer ou não a pena, do valor da amizade, do amor. E sinceramente, qual final me ensinaria isso? O final que mostraria a Dharma, o urso polar? Não, o final que mostra Jack fechando os olhos serenamente, ciente de que fez seu papel, que protegeu a ilha, a luz, o elo, e que mesmo que milhares de outras pessoas que por ali houvessem passado, não tivessem conseguido compreender, ele foi capaz de aprender com as dificuldades e os caminhos tortuosos e lutar por aquilo que realmente importava. E se somos cotidianamente confrontados com a real verdade de que somos dúbios e que não somos perfeitos, Lost mostrou que apesar disso, podemos fazer o certo sem visitar o discurso fácil da repetição das atitudes viciosas. Somos únicos e através da fé e do amor naquilo que acreditamos, podemos fazer algo diferente por nós mesmos e pela sociedade. Para nos proteger, para proteger a luz, a faísca que nos mantém vivos, e que nos mantém perdidos em busca da felicidade.




1 comentários:

Marta disse...

Adorei a série! Esperei que acabasse para começar a vê-la e desde que comecei a ver, foi sempre até ao fim, sempre a querer mais e mais. Concordo com a tua interpretação e acho que esta série é essencialmente um foco nas relações inter-pessoais, nas atitudes e nos comportamentos de determinado ser humano em determinadas situações. Foi uma série que conseguiu cativar até ao fim, com diálogos fantásticos e acima de tudo dá-nos uma noção da vida diferente, para melhor! Grande série, com certeza irei reve-la novamente...mais tarde e... com outros olhos! :)